A beleza prostrada da serra do Açor!

Chegados a mais um ano de apetecíveis férias, no sufoco de uma cidade arrebatada pelo trabalho e a vinda dum verão escaldante, soltamos as asas do imaginário com que voamos desde a inocência e poisamos na saudosa graciosidade de uma aldeia beirã.  

Blindada pela distância ao mediatismo, assim permanece aquele recanto maturado no seio da natureza, regalo para almas precisadas de alento. Seduzidos pela ociosidade de agosto, apressados pelos roteiros interiores, cuidados espirituais rogados à intermediação de Maria, ancoramos nas profundezas dum vale da serra do Açor.


Depois do galgar sinuoso dos montes, do olhar oblíquo entre desfiladeiros, entramos de rompante pelo povoado acedendo ao viver ancestral da população…

Os anos vão consolidando emoções, mas surgem sempre circunstâncias inesperadas, cataclismos que vão além da previdência humana e impelem a ajustar sensações.

Tudo começou de madrugada, num furioso relampejar sob as moitas do Piódão, centelha que desenhou das mais tristes páginas do verão montanhoso da Beira. Na palidez cinza de figuras aterradoras, o lume crepitou pelas agrestes arribas e fundas portelas, dizimando baldios e matagal, aterrorizando os povos, impávidos e enérgicos diante da adversidade, na defesa da sua integridade e das habitações.

No corrupio prolongado da noite e aflição das gentes, valeu o apaziguamento da GNR e os diversos bombeiros no auxílio humano prestado e salvaguarda de bens. Todos foram heróis, incluindo os habitantes, unidos no esforço e resistência ao pavor da situação.

Nos dias que se seguiram, o fumo e as notícias denunciavam o alcance do incêndio, mas aos poucos íamos tentando voltar às rotinas da montanha, aos convívios mais ou menos recatados nas lojas apetrechadas de elixir ou amizade, aos largos prazerosos de bem-estar.

E assim passaram as férias, uma consternação que a amplitude do tempo vai regenerar, no verde das ribeiras, no sol e afeto esperançados do alvorecer ou na companhia com que contemplamos o esplendoroso poente.

Um conturbado e edílico cenário que continuará sempre a ser abençoado pelo despertar da vida, na lonjura suficiente da civilização, um íntimo apego que faz emergir a felicidade, na plenitude de Deus ou no simples pertencer a uma comunidade!

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