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Vivemos cada vez mais no limiar do antagonismo, entre os que vivem na vertigem da adrenalina e o expõem nos meios de comunicação social e os mais comedidos na privacidade que preferem o consolo da pobreza espiritual. Ficamos divididos entre o que consubstancia a eternidade e a excentricidade do momento, predispostos ao extemporâneo e a viagens exuberantes ou apenas a alcançar um pedaço de terra prometida, peregrinando algures pela interioridade à descoberta do que faz mais sentido… É a partir desta altura, com o aproximar do Verão, que fazemos por regressar à sumptuosidade da serra do Açor, quando o florir de maio partilha os horizontes luzentes com o rejuvenescimento da natureza e a alegria da comunhão… O tinido das horas e da água que corre nos ribeiros vai ressoando pelas colinas e pela  leveza da introspeção, oramos aos santos padroeiros, participamos na tradição popular, habitamos as aldeias erigidas nos montes e abraçamos a vida no seu esplendor! Nessa perspetiva, cada vez qu...

É pela aridez que alcançamos a Páscoa!

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A solenidade mariana é um aconchego para Portugal, desde logo no solar da padroeira - Vila Viçosa, onde reina a Imaculada Conceição, mas em tantos lugares e múltiplas vigílias populares que são refúgio e oráculos de Deus... Também eu, que desde tenra idade acompanhava a família aos domingos à igreja ou ao Santuário de Fátima, fiz por seguir o exigível religioso com despudor e retidão, relevando em Nossa Senhora (Piedade) um futuro promissor por conta da latente privação. Igualmente consagrado em terras lusas é o dia de enaltecimento ao pai, fixado na solenidade de São José. O meu, sobrevivente às contrariedades do tempo, excessivamente silencioso e incansável lutador por um lar que, muito para além do trabalho, fosse a expressão da sua vida e do contido afeto… ainda me legou alguma aspiração terrena e devoção a Deus... E é por esta aridez e momentos de introspeção, num tempo eclesiástico que vai muito para além do apregoado jejum, que vamos tentando saciar o ser, buscando uma harmonia ...

A esperança do recomeço!

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Ninguém escolhe a via do sofrimento para alcançar a satisfação, mas quase sempre depois da adversidade se proporcionam breves instantes de felicidade… Na melancolia  destes dias invernosos, acentuada pela rispidez do tempo e a introspeção da época festiva, avivam-se memórias íntimas e retalhos de vida, sejam de alegria e partilha ou de inquietude e provação, no seio da cumplicidade familiar. Desde logo a recém prostração da matriarca e os glamourosos enlaces que vieram revigorar a prole, celebrações que intermediaram o deleite das férias nas frescas sombras dos castanheiros, bem lá na fundura dos outeiros, a salvo da voracidade do fogo que devastou a altivez da serra. São daí as raízes ancestrais desta casta, crescidas no deslumbramento da cordilheira, com rebentos lacerantes que alternaram com viçosas ramificações! Neste recomeçar, de um novo ano, lembro também o discreto sofrimento que está para além do frenesi acostumado das praças citadinas, todavia o apaziguador amanhecer de...

A beleza prostrada da serra do Açor!

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Chegados a mais um ano de apetecíveis férias, no sufoco de uma cidade arrebatada pelo trabalho e a vinda dum verão escaldante, soltamos as asas do imaginário com que voamos desde a inocência e poisamos na saudosa graciosidade de uma aldeia beirã.   Blindada pela distância ao mediatismo, assim permanece aquele recanto maturado no seio da natureza, regalo para almas precisadas de alento. Seduzidos pela ociosidade de agosto, apressados pelos roteiros interiores, cuidados espirituais rogados à intermediação de Maria, ancoramos nas profundezas dum vale da serra do Açor. Depois do galgar sinuoso dos montes, do olhar oblíquo entre desfiladeiros, entramos de rompante pelo povoado acedendo ao viver ancestral da população… Os anos vão consolidando emoções, mas surgem sempre circunstâncias inesperadas, cataclismos que vão além da previdência humana e impelem a ajustar sensações. Tudo começou de madrugada, num furioso relampejar sob as moitas do Piódão, centelha que desenhou das mais tr...

Cada coisa a seu tempo tem seu tempo!

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Num destes dias invernosos, imputável ao tempo, desconsolado ainda mais pela desolação parental, desfolhei um livro, no vendaval do acaso, do ilustre nobel Saramago, eloquente nas ideias, de arreigada índole atlântica, também ele José como o dia a que aludia a santidade daquele exultado pai! Naquelas linhas parcas, escritas elas também num dia invernal de janeiro, falava sobre a relevância que conferia ao precoce estudo e admirável mundo que se abria no recato da leitura, nomeadamente ao impacto que uns quantos versos de Ricardo Reis, que se lhe “impuseram como uma divisa, um ponto de honra, uma regra imperativa que iria ser meu dever para todo o sempre, cumprir e acatar. Eram eles estes:” Para ser grande, sê inteiro: nada Teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és No mínimo que fazes. Assim em cada lago a lua toda Brilha, porque alta vive! Depois continua a dissertação dizendo que, desde então, a tais palavras “Fiz o que pude para não ficar atrás do que se me ordena...

Nem todo o outeiro a vida!

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Não espero amor nem aclamação Espero enleio celeste No alto da montanha, numa terra esquecida Voltar ao berço imerso No seio da pureza do ar Imensidão dum açor destemido Lugar de reencontro, abrigo e esperança Ave cansada, num último voo a pico Pouso suave e fico! Mesmo com os outeiros varridos por ventania Uma majestosa bruma a coroar a natureza Até no inverno mais rigoroso Um açor confia que Deus não dorme Morrer é para quem enobrece O nada, juntos, se transforme! Até sempre Maria do Céu! N.20fev1931 - F.7mar2025 (94 anos)

Animados pela estrela da salvação!

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Todos esperamos, mesmo os mais distraídos ou arreliados com a adversidade do destino, que a luz do Natal nos abrace com a magia daquela noite ou que no alvor seguinte, um clarão maior de esperança faça vislumbrar um horizonte com mais sentido! Nesta vida de pecado e privações esta é uma altura propícia para ir ao encontro da misericórdia divina e da conversão, ao invés de alienações ou revoltos sentimentos que resvalam para ações negativas e desvirtuam a humanidade. O comportamento comunitário ou individual não deve encobrir a fragilidade com o ego, nem deve menosprezar o alento da caridade e a simplicidade de cada ocasião, como fez o estalajadeiro ao apelo da sagrada família! Antes devemos procurar desvanecer a presunção e a hipocrisia, edificando o orgulho na autenticidade e na concórdia, seguindo, animados como os pastores, a estrela da salvação!